CÉLULAS-TRONCO DO TECIDO OVARIANO PODEM PRODUZIR ÓVULOS VIÁVEIS?
Vários jornais veicularam no fim de semana uma notícia que poderá
ajudar a entender a embriogênese humana e permitir no futuro grandes
avanços na tecnologia de reprodução assistida. Trata-se de uma pesquisa
liderada pelo cientista Jonathan Tilly (Harvard Medical School,
Boston) publicada na revista Nature Medicine (26 de fevereiro).
Os pesquisadores mostraram que existem nas paredes do ovário
células-tronco raras que teriam o potencial de formar ovócitos (células
que originam os óvulos) de maneira análoga às células-tronco
espermatogoniais que dão origem aos espermatozóides nos testículos
adultos. Essa observação que já havia sido publicada em camundongos foi
agora testada e depois de 3 anos de pesquisas aparentemente comprovada
também com células humanas.
A quebra de um paradigma
Desde a década de 50, aceita-se que o sexo feminino já nasce com um
“pool” de ovócitos que não poderia ser expandido. Isto é, uma vez
terminado o estoque não seria possível produzir novas células
reprodutoras femininas. Entretanto em 2004 uma pesquisa liderada também
por Jonathan Tilly demonstrou que existe no tecido ovariano de fêmeas
de camundongos uma população rara de células-tronco que podem gerar
ovócitos. Essa células foram denominadas OSCs (do inglês oogonial
stem-cells). Essa publicação gerou muitas críticas na época, mas
pesquisas posteriores mostraram que era de fato possível isolar células
OSCs de ovários de fêmeas de camundongos recém-nascidas e adultas. Essas
células quando transplantadas em ovários de outras fêmeas que haviam
sido submetidas a quimioterapia formaram óvulos maduros que foram
fertilizados e produziram descendentes viáveis. Estava comprovado que as
OSCs tinham o potencial de gerar óvulos normais e que, portanto, o
envelhecimento do ovário era um processo reversível. Pelo menos em
fêmeas de camundongos.
Qual foi o próximo passo?
Agora a grande questão era saber se isso também acontece com os seres
humanos. Isto é, se há também nos ovários das mulheres células-tronco
com o potencial de formar óvulos. Para responder essa questão os
cientistas liderados pelo mesmo Dr. Jonathan Tilly obtiveram tecido
ovariano que havia sido retirado de mulheres jovens (entre 20 e início
dos 30) e conseguiram identificar células-tronco muito semelhantes às
OSCs de fêmeas de camundongos. Quando colocadas em cultura essas células
humanas – que foram marcadas previamente de modo a terem um brilho
verde para facilitar sua identificação – tinham as mesmas
características que ovócitos encontrados em ovários humanos.
E “in vivo” como essas células se comportariam?
Para responder essa próxima questão, os cientistas inseriram esses
ovócitos em fragmentos de tecido ovariano humano que foram depois
transplantados sob a pele de camundongos imunologicamente deficientes (
isto é, manipulados geneticamente para não rejeitar tecidos humanos).
Duas semanas depois os pesquisadores observaram que o tecido ovariano
implantado continha inúmeros folículos com ovócitos humanos no seu
interior que brilhavam com a cor verde, comprovando que eram de fato
humanas e não de camundongos.
E agora? Quais são as grandes dúvidas?
É importante salientar que essas células são raras o que explica em
parte o longo tempo dos experimentos para obtê-las. Por outro lado, os
cientistas mostraram que elas podem ser expandidas o que permitirá
inúmeras novas pesquisas sobre embriogênese humana e envelhecimento
ovariano. Entretanto, há muitas questões ainda a serem respondidas. A
primeira que me surgiu ao ler o trabalho foi que as células OSCs haviam
sido obtidas de tecido ovariano de mulheres jovens. Será que estão
presentes também nos ovários de mulheres mais idosas e principalmente
após a menopausa? Essa questão será mais fácil de ser respondida com
novas pesquisas. A mais complicada, no entanto, é descobrir se os óvulos
derivados dessas células seriam capazes de gerar bebês normais. Isso
poderia revolucionar a medicina reprodutiva. Mas, por motivos óbvios não
será possível repetir o experimento dos camundongos. Esperemos que os
avanços tecnológicos possam resolver esse impasse.
29/02/2012 às 8:48 \ Mayana Zats - Geneticista

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